TRIBUTO
...multiartista Márcio Felipe Gomes, que muito nos honra...
TRIBUTO A MÁRCIO FELIPE GOMES
Esse momento não é de despedida, não é uma cerimônia de adeus. É antes, para falar do que permanece, de uma história que se escreve, inscreve-se na memória, nos corpos, nos silêncios, na arte dos que de alguma forma foram atravessados pela poética do multiartista Márcio Felipe Gomes, que muito nos honra, nos honrou com a sua presença física, com a sua energia, sua criação artística, pura adrenalina, espraiada entre nós, e que fica no seu legado, na arte que produziu e compartilhou conosco, com o mundo.

Com seu talento e carisma, seu espírito de liderança e com sua disciplina e perseverança, foi responsável pelo surgimento de uma geração de jovens artistas em Teresina. Foi semente que plantada germinou, virou árvore, produziu frutos que hoje se multiplicam e se espalham engrandecendo a nossa dança, o nosso teatro, a vida, enfim.
Com identidade própria, iniciou sua trajetória nos corredores escolares de ensino médio e já ali também pelo palco e salas de ensaio do Teatro Municipal João Paulo II, no Grande Dirceu. Já ali, ainda adolescente, com seu carisma, liderando uma turma que também se sentia extasiada com a ideia do artístico, da criação, foram personificando romeus e julietas, sonhando lindas noites de verão, acreditando em um mundo encantado de oz, mas com um pé na realidade, recriando crônicas de doroties, trilhando sua estrada de tijolos amarelos, sempre conectado com o mundo real e explodindo para a cena teatral da cidade.
E dançou! E dançaram All Street Songs pelas vias e vielas de uma cidade elétrica, eletrizante, com toda a sensualidade e picardia de uma casa noturna. Príncipe, ajudante de bruxa, irmã avarenta, Eulinda, num impulso, provocou uma muvuca, mergulhou em cada nuance que o tornava vivo. Zumbeats fez escola, fez conexões, foi o núcleo de uma dança urbana explodida na cidade, irradiando sonhos imberbes com seus poros de alta tensão, embriagando-se de todas as cores, de todas as dores, misturando tudo isso diante de um espelho, com a cabeça cheia de ideias.
Também Catirina, movido pelo desafio e pela urgência de se entregar por inteiro à arte que escolheu — e que também o escolheu e acolheu —, atravessado por lutas internas e históricas, gritou as violências que rasgam a carne de quem as sofre e também de quem empresta sua sensibilidade ao ato de escutar; performou violências de sexo, de gênero e de existência, tomando seu banho de asseio n’a bacia de Proust.
Em seu último ato de sua trajetória de pesquisador e artista da cena, titulou-se mestre, ampliando o gesto para além do palco, investigando “Corpos periféricos sob a ótica das danças urbanas”, inscrevendo no campo acadêmico aquilo que sempre pulsou em sua prática artística: o corpo como território político, poético e insurgente. E é nesse entrelaçamento — entre arte, vida e pesquisa — que sua presença segue viva, reverberando e abrindo caminhos para quem vem depois.
Por isso, não dizemos adeus. Porque Márcio Felipe Gomes permanece no que criou, nos corpos que despertou, nas ideias que acendeu. Permanece como gesto, como memória em movimento, como força que não cessa. Enquanto houver dança, cena, pesquisa e desejo de criação, ele estará — vibrando, abrindo caminhos, lembrando a todos nós que o corpo é território vivo e que a arte é uma forma de permanecer.



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